Por ocasião do Dia Mundial da Língua Portuguesa (5 de maio) e do Centenário do nascimento do escritor José Saramago, as Embaixadas do Brasil e de Portugal no México lançaram a quarta edição do concurso de redação em português dirigido a jovens mexicanos.

O mote do concurso era uma frase d’A jangada de pedra: “Passava de vinte anos que o navegador andava nos mares do mundo”. Os participantes colocaram-se na pele do navegador e descreveram um dos lugares que conheceram nas duas décadas de exploração marítima imaginária.

Todos os textos submetidos foram escritos em português e avaliados por um painel de júris que decidiu os dois vencedores, atribuindo ainda uma menção honrosa, a saber:

Xochitl Luna: vencedora de uma bolsa no valor de 3 000 pesos para estudar um nível de Língua Portuguesa;

Pedro Terán: vencedor de um voucher de livros no valor de 3 000 pesos;

Ana Laura Torres Hernández: menção honrosa e atribuição de bilhetes para assistir a uma sessão na Semana de Cinema Portugués.

 

Redações vencedoras (texto conforme os originais):

Xochitl Luna

Navegante da língua portuguesa.

Diante dos vinte anos que naveguei pelo mundo, onde tudo mudava, onde todo o tempo a gente ia e vinha.

Quando eu comecei aprender a língua portuguesa (e ia conta corrente) todos me falavam que era uma língua mais.

Vinte anos depois de ter o primeiro encontro com ela, tenho tantas coisas para falar dela...que acho que esta folha vai ficar curta do que tenho a dizer.

A língua portuguesa é agora a minha amiga, como tal temos todos esses elementos que deve ter uma amizade: respeito, lealdade, amor e parceria.

Todos os dias procuro alguma coisa que tenha que ver com ela: seja música, literatura, notícias, até gramáticas (as vezes) ...a verdade cuido dela, de essa amizade.

A língua portuguesa me tem levado por vários lugares do mundo através dos livros, primeiramente pelo Brasil e por Portugal mas também pelos outros sete países de fala portuguesa.

Abrindo minhas asas e minha mente enquanto abro um livro, e sempre ficando com vontade de aprender mais e mais da língua.

Essa língua que me tem levado pela Madeira, pela Bahia, pelo Porto, pela Ilha Grande, por Lisboa, pelas Quedas de Kalandula, pelo Arquipélago das Quirimbas, pela Amazônia e pelos outros tantos lugares belíssimos no mundo.

Por que ainda de que o tempo todo a sociedade sempre me falou de estudar qualquer outra língua, eu fiquei e fico atrapalhada pelo português-até apaixonada...como falou José Saramago “Sempre chegados ao sítio aonde nos esperam”* e o português sempre ficou esperando por mim.

*A viagem do Elefante. José Saramago. 2008

 

Pedro Terán

Era mais outra manhã de terça-feira, normal, a correr com sua “T” de tristeza, apesar de alguma coisa ter acontecido nos últimos anos.  O café, a ser servido e a maré, um pouco mais agitada do que o habitual. Não sentia que houvesse alguma novidade, no entanto, podia distinguir aquele sentimento persistente de melancolia dentro do meu peito, que tornava cada vez maior a falta dela. A única coisa que me mantinha em pé, era a esperança de encontrá-la quando o barco atracasse. Tentei ignorar a saudade, mas à distância ouvi o capitão gritar:

-Atenção! Terra à vista! Eis uma ilha! Todos olhamos maravilhados, pois era difícil acreditar que houvesse um pedaço de terra intacto após a crosta terrestre ter sido fraturada num passado distante. Ficámos cativados pela ilha. Ao longe, sobressaíam as cores fluorescentes dos galhos das árvores, dando a ilusão que estávamos num lugar paradisíaco, e sem perceber em que momento, começamos a questionar se ainda estávamos navegando as águas do mesmo mundo do qual tínhamos partido.  Tudo parecia tao real e mesmo quando o nevoeiro começou a cobrir a paisagem, como se tentasse proteger aquela ilha, mesmo com isso a acontecer, nenhum de nós sentia medo, a atmosfera era completamente pacífica, e ecoavam em minha cabeça, as últimas palavras que a minha amada me disse antes de eu embarcar: "Quando você chegar ao seu destino, prometo que estarei lá, não importa o tempo, estarei à sua espera, entusiasmada".

Foi então que subi até o ponto mais alto do mastro da jangada de pedra…. Foi inevitável rebentar de melancolia com um panorama tão belo. Só tinha sentido esta sensação uma vez na minha vida.  A brisa do mar cingiu-me, quase ao ponto de poder sentir as mãos quentes dela, mãos que já me acariciaram antes, aquela velha sensação que, aos poucos, se fazia mais intensa. Ela passava suas mãos carinhosamente nas minhas e eu sentia que a cada fôlego meu, ela se aproximava cada vez mais do meu corpo inteiro, para abraçar-me.  Tomou-me nos seus braços, eu podia sentir a sua respiração na minha testa como naquelas noites de inverno em que ela adormecia segurando o meu braço em frente da lareira.

Mal fechei os olhos para poder segurá-la mais um momento, quando ouvi a sua voz a dizer:

-Não se preocupe comigo, estou bem onde me deixou, é apenas inevitável esperar sua chegada todas as manhãs. Ao ouvir a sua voz quente, apertei mais os meus olhos, na esperança de não acordar desse sonho que parecia demasiado verdadeiro. Foi então que a pouco e pouco saímos da densidade do nevoeiro e à distância os raios do sol começaram a mostrar o início de um novo dia e sem o saber, eu tinha acordado mais uma vez, só para perceber que embora chegasse a qualquer destino, poderia encontrá-la apenas nos meus sonhos, uma vez que ela embarcara para além-mundo. Foi então que compreendi que esse denso nevoeiro e o seu abraço caloroso eram a forma dela de dizer "adeus, amado".

 

Ana Laura Torres Hernández

Geografias da saudade

“Sempre chegamos ao sítio onde nos esperam”

José Saramago, “A Viagem do Elefante”

Sou pirata e vivo da aventura. A minha família é a tripulação que vai comigo numa caravela quando começa o tempo de trabalhar. Mas este verão foi diferente, porque muitos dos meus homens ficaram doentes e morreram no navío, então tivemos que parar para deixar os seus corpos. Triste, pensando nisso e olhando para o horizonte achei curioso que este planeta seja chamado: Terra, quando o seu mar é o elemento mais majestoso de toda a sua arquitetura.

Aquele mar que engendrou tudo e que desgasta tudo sem princípio ou fim. Mar que, com as suas ondas leva-nos para as praias e atira os cadáveres húmidos do que outrora foi vida, deixando apenas entre os nossos dedos, pedaços minerais de rochas que arranham os nossos pés.

Perdida nos meus pensamentos alterei o curso da navegação e foi assim que chegámos a uma ilha que parecia uma rocha gigante, nunca antes vista, com curiosidade baixei do navio para descobrir onde é que estávamos, mas por segurança fui só. Andei muito e não vi ninguém. A primeira noite sozinha na areia refletindo apercebi-me que era melhor ir embora. Sim, preciso andar. A andar sinto-me segura, dinâmica, em sintonia com as vozes na minha cabeça e o eco sinfónico que escapa da minha garganta. Ando e penso, quando a mente fica turva, sei que preciso andar. Andando por aí olhei para as paisagens que me rodeiavam e as imaginei um pouco mais verdes, menos cinzentas, talvez mais silenciosas. Silencio?

Nesse momento eu escutei uma voz e a terra debaixo dos meus pés começou a tremer: “A viagem não termina só os viajeros terminam”, assim disse o elefante falante que era na verdade a ilha. Eu estava sobre as suas costas que despertaram com a minha presença.

Achava ter encontrado uma ilha mas era uma criatura mitológica que sobrevivía oculta no mar. O elefante começou a nadar dizendo: “Para sermos cidadãos do mundo, temos de aprender a ser estrangeiros de nós mesmos.” Levou-me aos oceanos cheios de seres coloridos, a luz da lua acompanhou minha descoberta de polvos enormes, baleias e tubarões que jogavam com os peixes dourados mais lindos que eu já tinha visto. E ao amanhecer vi o nascimento do sol mais vermelho que conhecera até agora.

Depois de ter falado com essa criatura exquisita percebi que há tesouros que ninguém pode descrever e é exatamente por isso que são o que são. Uma joia descoberta perde o seu valor.

Hoje tenho o desejo imenso de voltar naquela ilha viva, mas não interessa quanto eu procure, todos dizem que não existe, que foi um sonho. Por isso comecei a fazer um meu mapa onde existem também as geografías da saudade, espaços negados que ainda assim são lembranças da nossa viagem na vida.

 

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